Nunca se especulou tanto a respeito de assunto tão esperado. Eduardo Cunha preso tornou-se imediatamente um fato que excita a imaginação política, naturalmente fértil: fará ou não delação? Com denúncias contundentes? Mesmo sem provas cabais? Seu livro vai ser publicado? Poupará ex-aliados? Quem serão, de fato, seus desafetos?

Quem quiser as respostas para essa lista interminável de perguntas, na ausência de fatos terá que pensar como um agente policial de série de TV das 11 da noite. Na primeira hora dos acontecimentos, a mídia não ajudou muito a decifrar o enigma.

O primeiro exercício, então, é saber se o ex-todo-poderoso presidente da Câmara está mais para José Dirceu, um político profissional, ou para Nestor Serveró, um operador de estatal, sem grandes sofisticações.

Na primeira hipótese, sua tendência seria jogar com os investigadores, categoria que também aprecia esse esporte, a propósito mais difícil que o xadrez; na segunda possibilidade, deve-se esperar um mero comportamento de alguém acusado de quadrilheiro. Gente acostumada a contas simples de chegar, sem maiores preocupações com as vítimas nem, nem expectativas de grandes desdobramentos.

Em qualquer uma delas, contudo, quem conhece seu estilo espera um comportamento Marcelo Odebrecht – demorado, desafiador. Combina mais com o perfil psicológico do homem que dominou Brasília nos últimos dez anos, e só perdeu a aposta por um erro fatal de vaidade. Por ter ido a uma CPI sem ser chamado, portanto, de graça e despreparado para enfrentar suspeitas embaraçosas.

Está provado que as marcas registrada de Cunha são imprevisibilidade e obstinação. Dele pode-se esperar tudo. Eis o dado mais assustador no repertório do homem-bomba do momento. Mas antes de tudo, ele só poderá delatar crimes a respeito dos quais tenha provas.

Como poderia tê-las se, em geral, sua especialidade era justamente agir sem deixar rastros? Versátil, com domínio de todas as posições, forte e ágil, conduzia e arremessava. Um ala, hoje fora da competição. Inevitável dublê de Roberto Jefferson, delator de Dirceu, ambos feriram de morte o PT, sendo que o primeiro entregou o chefe, mas não o funcionamento da engrenagem, que mais tarde se replicaria no petrolão.

A rapidez da ação do juiz Sérgio Moro, ao despachar em semanas um caso que dormiu longo período no Supremo, tirou o sono da população mais ilustre da Capital do país. Muitos não conseguiram dormir, atormentados por outra sorte de perguntas formuladas pela insônia: estarei na lista? Conspiram contra mim? Meu caso será simples? Serei acordado bem cedo pela Federal?

Enquanto isso, em Curitiba, Cunha monta sua narrativa, mas não pode brigar com todo mundo. Político é o ser mais realista que existe. Quase sempre já está bem na frente enquanto os mortais ainda tentam entender o que se passa. Despois de sua prisão, será inevitável a pressão para enfrentar a pauta Lula.

Publicado no Blog do Noblat em 20/10/2016.

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