Certa vez, um dos pais do Plano Real me pediu que almoçasse com o então correspondente de uma vetusta revista de economia do Reino Unido. Fomos ao restaurante do Bonaparte, em Brasília. Não resisti a fazer um comentário: disse que estava preocupado com a precisão das informações sobre a Rússia e a China.

Teria dito ele: “I beg you pardon?”. Não, não disse. Eram tempos mais informais. Perguntou apenas o porquê daminha preocupação e se eu sabia de alguma grave imprecisão no noticiário da ilustrada revista. Disse eu que não. Somente que, por analogia, temia que as notícias sobre os dois países estivessem um pouco imprecisas.

“Por analogia?”, indagou ele. Não resisti. Sabia que ia me custar um gelo. Com uma ponta de ironia, respondi que as notícias sobre o Brasil eram muito imprecisas e que, por analogia, temia que estivesse acontecendo o mesmo quando a revista tratava da Rússia e da China.

Claro que o correspondente jamais voltou a falar comigo. Retornou para a sua prudente distância de Brasília, a mais de mil quilômetros, e de lá prosseguiu disparando seus comentários sobre os acontecimentos no DF.

Evidentemente, o pobre correspondente não tem tanta culpa assim. Até mesmo para brasileiros do Rio e de São Paulo é difícil entender a política de Brasília. Trata-se de cidade invicta cujo enigma prossegue intacto desde a sua criação. A redemocratização só complicou. Trouxe muitos partidos, muitos caciques, muitos escândalos, tudo muito tudo!

Lembro-me de um livro em que o correspondente de guerra, que estava confortavelmente instalado em um hotel a centenas de quilômetros do front, mandava suas matérias para o jornal. Entre um trago e outro, a guerra acabou e ele mandou a informação errada de batalhas imaginárias. Falar de Brasília a alguns milhares de quilômetros de distância é uma temeridade. Compra-se gato por lebre.

Por isso eu gosto do comentarista Gerson Camarotti. Com ele não tem erro. Lembram quando disseram, às vésperas da votação do impeachment, no plenário da Câmara, que o governo articulava uma reação liderada por Waldir Maranhão e que corria o risco de o governo DilmaRousseff virar o jogo? Camarotti não acreditou. Ele estava no front, em meio ao tiroteio.

Agora o não menos vetusto New York Times veio, em editorial, afirmar que Dilma talvez tenha sido vítima de uma injustiça por estar pagando um preço “desproporcional” por seus pecados, já que aqueles que a condenam cometeram crimes maiores.

Ou seja, Dilma deveria ser aliviada de seus crimes porque parte daqueles que a julgam teriam cometido crimes piores. Muito bem, quantos dos que a julgam foram condenados? Quantos cometeram crimes maiores do que pedalar bilhões de reais? O que seria proporcional para Dilma no entendimento ilustrado do NYT?

No mínimo, para não dizer o máximo, o vetusto periódico está viajando na maionese. Dilma cometeu crimes apontados pelos seguintes organismos: Tribunal de Contas da União, que lá nos Estados Unidos se chama General Accounting Office (GAO); pela Câmara dos Deputados;pelo Senado Federal; e tudo chancelado pelo Supremo Tribunal Federal. Onde está a injustiça? Onde está a desproporcionalidade?

Seria proporcional que os crimes de Dilma fossem aliviados porque os crimes dos outros são potencialmente piores? Qual é a noção do direito que se depreende do raciocínio do editorial do New York Times? By the way, a “injustiçada” Dilma está sendo processada por obstrução da Justiça. Será que o NYT aceitaria as pedaladas do presidente da República caso apontadas pelo GAO norte-americano, Congresso e chanceladas pela Suprema Corte?

Será que o bem-informado NYT não sabe que Dilma está sendo investigada pelo Departamento de Justiça e pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos? Ou, ainda, que o FBI andou buscando provas da Operação Lava-Jato para robustecer as investigações que correm nos Estados Unidos e que afetam à sua presidência.

Para consolo do editorialista do NYT, aqueles que cometeram crimes e que ainda não foram julgados não perdem por esperar. A mão forte do STF será pesada. Aos que perderem o foro privilegiado, restará enfrentar o juiz Sérgio Moro.

Ainda que seja inaceitável o NYT ter um entendimento tão shallow da realidade brasileira, devemos ter paciência com o bom homem branco do Norte e suas intenções de tentar restabelecer a justiça neste trópico cheio de suores e alegorias. Resulta de um misto de preguiça e colonialismo.

O Brasil é tão complicado que dá preguiça. Dá vontade de “deixar pra depois” ou dizer “amanhã, quem sabe, eu vou”. Imaginem para o gringo que esta lá em Nova York e que tem que escrever um editorial sobre o “Brazil” antes de ir correndo para traçar aquele ossobuco no Becco?

Antes que me ataquem, respondo com a frase do velho editor na peça Lucky Guy, de Nora Ephron: “Só existem dois fatos na vida: o nascimento e a morte. O resto está submetido a interpretações.” Muitas delas são horrendas.

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