As eleições municipais de 2016 vão acrescentar mais um complicador à já perturbadora situação política nacional. Serão escolhidos prefeitos nos mais de cinco mil municípios brasileiros, que constituem o verdadeiro fundamento de atuação dos parlamentares. Eles necessitam do apoio das chamadas bases para desenvolver suas piruetas em Brasília. Fazem o que fazem com os olhos voltados para o seu eleitorado local.

A eleição será realizada em outubro, mas os partidos estão preocupados desde agora. As repercussões de todos os problemas políticos enfrentados nos últimos meses vão aparecer lá. O Partido dos Trabalhadores, que tem sido premiado com penas pesadas para seus dirigentes, deverá pagar uma conta robusta. O eleitor sabe o que acontece no governo federal e identifica na pessoa do representante de seu partido parcela da responsabilidade. Além disso, os próprios parlamentares terão dificuldades de dialogar com seu povo. Muitos vão simplesmente trocar de partido.
Essa deverá ser a mais pesada punição que os políticos vão sofrer. Prisão passa, processo eles conseguem protelar ao máximo, mas o descrédito do eleitor perturba e dificulta o futuro de uma carreira no parlamento. O governo Dilma será julgado pelas urnas. Sua popularidade continua muito baixa. E a eficiência ainda menor. A crise nos serviços de saúde em todo país é evidente e atinge, de maneira mais direta, os de menor renda. A presidente não foi ao Rio de Janeiro, nesta semana, para evitar as vaias.

É uma situação curiosa. A presidente não pode se expor porque sofre com o desprezo da população. Seu principal opositor, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, também é aconselhado a não aparecer em público. Nos locais onde ele comparece, em vários pontos do país, é perseguido por vaias, gritos de protesto e faixas solicitando sua exoneração do cargo que ocupa. Uma e outro estão mal no imaginário popular. As eleições de 2016, embora municipais, vão começar a desenhar o futuro político do país.

É importante perceber que o vice-presidente Michel Temer, que chegou a namorar a ideia de suceder Dilma Rousseff como consequência de eventual impeachment já recolheu suas pretensões. As decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, que ainda deverão ser esclarecidas, resultaram em procedimento mais lento no Congresso. A volúvel maioria do governo federal na Câmara poderá mostrar sua verdadeira face e dimensão com o voto aberto determinado pelos ministros daquele supremo tribunal. Ainda assim, restará o caos econômico em que a imprevidência da atual administração colocou o país.

A crise na saúde no estado do Rio é apenas o ponto visível do problema em todo o país. O governador Pezão pede socorro porque as receitas caíram como consequência da queda do preço do petróleo – o Rio recebe polpudos royalties da exploração – mas também porque a Petrobras, assaltada no governo Dilma, reduziu drasticamente suas atividades. E sua principal área de atuação é precisamente o estado do Rio de Janeiro, onde estaleiros estão sendo fechados, obras paralisadas e há uma onda de demissões dos trabalhadores ligados ao setor. A queda na arrecadação é consequência direta.

Os números da economia impressionam. Inflação de 10% neste ano. Previsão de seis ou sete em 2016. Retração da economia na ordem de 3,6%. Desemprego avassalador. Queda de atividade em praticamente todos os setores. Nenhuma obra nova. No quesito infraestrutura nada do que foi prometido foi realizado. As dificuldades para exportação de grãos do centro-oeste continuam as mesmas. Nenhum metro de trilho foi colocado no tímido sistema ferroviário nacional. Em termos de eficiência o governo federal é um completo desastre.

Os políticos parlamentam. E não encontram soluções. Dilma chamou até Ciro Gomes para rebater críticas. Mas não funcionou a contento. O desalento é maior. Michel Temer conversa com todos os quadrantes, inclusive com maiorais do PT, e desfia seu rosário de mágoas em relação à presidente. Na realidade, inexistem grandes políticos. Um dos personagens da atual crise lembra que no episódio do impeachment de Collor, figuras como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Marco Maciel, Thales Ramalho trabalharam para embalar o produto e formar o consenso. Hoje não há ninguém preocupado com o futuro. As soluções são improvisadas da mão para a boca. O atual governo terminou. Quer recomeçar, se passar pelo teste do impeachment. Mas parece tarde para recuperar o tempo e a popularidade perdidos.

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