Tenho boas relações com uma pessoa que é jogador profissional. Homem do pano verde. Arredio. Não gosta de contar suas aventuras nos cassinos do mundo. Discreto, entra e sai das catedrais da jogatina sem falar muito, nem dar pistas se ganhou, perdeu ou saiu no empate. Outro dia, em conversa com tempo suficiente e vinho de qualidade, sobrou oportunidade para ele me contar que, tempos atrás, ganhou setenta mil dólares, num único dia, na roleta nos Estados Unidos.

Desconfiou quando os dirigentes da instituição ofereceram pagar seu ganho com um cheque. Preferiu dinheiro vivo. Dias depois, em Nova Iorque, entrou em um dos grandes bancos locais. Disse que desejava abrir uma conta. Foi recebido por um gerente que se assustou quando viu, ao vivo, a quantia em dinheiro. Passou rapidamente para uma sala protegida e colocaram diante dele os papéis para ele assinar. Quando a transação estava para se concluir, o gerente lhe disse:

– Agora o senhor só precisa nos dizer a origem do dinheiro.

O jogador, que não gosta de se identificar, relutou. Disse que iria procurar, então, outro banco para fazer o depósito. O gerente se prontificou até a ajuda-lo, mas advertiu que teria que avisar as autoridades financeiras do governo de que um cliente os havia procurado com setenta mil dólares em dinheiro e não quis esclarecer sua origem. Ele percebeu o imenso risco e acabou revelando que havia ganho no cassino de uma cidade norte-americana. Deu todas as coordenadas. E completou: podem procurar as informações lá e checar todos os dados.

– Não. Sua declaração já nos basta.

Mentir, neste caso, seria pior. O depósito foi feito. Isso demonstra a preocupação dos operadores financeiros nos Estados Unidos. O desmonte da máquina de corrupção da FIFA começou quando as propinas começaram a correr por bancos norte-americanos. A partir dali a investigação se espalhou por diversos países. No Brasil, a Confederação Brasileira de Futebol perdeu presidente e vice. Na entidade máxima do esporte na Europa até o sujeito que sugeriu um chute no traseiro dos brasileiros está suspenso das atividades esportivas e perdeu o emprego. Tem muita gente presa.

Os banqueiros têm enorme força política. Talvez isso explique o fato de nenhuma dessas instituições tenha sido envolvida nas trapalhadas protagonizadas pelos operadores de partidos políticos nas empresas estatais brasileiras. O dinheiro, mesmo que tenha sido pago em espécie, em algum momento precisa ser depositado para ser sacado no exterior. Ou, ao contrário, retirado no exterior e enviado ao Brasil. O banco inglês HSBC foi pego nos Estados Unidos em transações pouco elogiáveis no trato dos dinheiros ligados ao tráfico de drogas. Encerrou sua operação naquele país. Aliás, também saiu do Brasil.

Quase todos os dias, os jornais informam que o doleiro Alberto Youssef está envolvido em mais um episódio de lavagem de dinheiro. É preciso perceber que em nenhum momento ele é acusado de desviar dinheiro público. Ele responde no quesito lavagem de dinheiro. Ou seja, ele funcionou como uma espécie de agente financeiro para quem recebia propinas. Quando foi preso, pela última vez, na cidade de São Luiz do Maranhão, havia entregue uma mala cheia de dinheiro a um dos principais assessores da então governadora Roseana Sarney, segundo indicam os depoimentos divulgados pelos jornais.

Qualquer depósito superior a dez mil reais é imediatamente avisado as autoridades financeiras no Brasil. Ao menos, em tese. Os doleiros, contudo, andam para cima e para baixo no país com imensas quantias de dinheiro e não são detectados. E seus saques não são percebidos pela fiscalização. Os bancos transitam com enormes somas com a maior facilidade. Cada vez que um delator, na operação lava-jato, diz que pagou propina a alguém, ele na verdade está dizendo que mandou uma pessoa entregar dinheiro vivo ou realizar uma transação bancária.

Ao que parece o Brasil é um país de cegos. Os traficantes de cocaína vão até a selva colombiana comprar pó e pagam em cheque. São transações realizadas por intermédio daquele telefone especial conectado diretamente ao satélite. Ninguém é suficientemente maluco para levar dinheiro vivo para dentro da mata. Morre no segundo passo. Alguns dos funcionários de empresas envolvidas nas investigações da lava jato dizem, em voz baixa: é preciso pegar os bancos. Ninguém consegue, contudo, ouvir este lamento.

O procurador da República já colocou o ex-presidente Lula no centro do escândalo na Petrobras e suas subsidiárias. Mas ainda não chegou perto do coração do sistema financeiro. Esse é um grupo fechado, poderoso, que assusta por sua força e pela capacidade de se movimentar com rapidez num cenário político frágil como é o brasileiro.

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