Nos anos 90, havia uma novela mexicana chamada Canavial de Paixões. A fórmula era a de sempre: traições, irmãs inimigas, paixões proibidas, bate-bocas, mentiras descaradas, favorecimentos indevidos. Tudo melodramaticamente composto com maquiagem excessiva, pintura nos cabelos, muitos, muitos canastrões e alguns bigodões. O Brasil de hoje é um Canavial de Paixões.

O que agradava nas novelas mexicanas era a alta voltagem do drama, da indignação, das maldades. Maldades feitas pela bedel do orfanato contra a pobre menininha. A irmã malvada tramando contra a irmã paralítica (ou cega). O tapa na cara seguido do indefectível “calla te”.

Tudo feito de forma a chocar a alma simples de um povo pouco dado a maiores reflexões. Para aqueles que se impressionam, no Brasil, com os anúncios explosivos da Ricardo Eletro ou das Casas Bahia. “Tudo sem juros”, diz a cavernosa voz em off. Nossa novela da vida real é sem juros, mas o preço do fracasso é altíssimo.

O espetáculo da política no Brasil do momento é igualmente eletrizante e melodramático. Com recheios de dramalhões e reviravoltas diárias e mirabolantes. Carta indignada do vice-presidente para a presidente, pancadaria em plenário, manobras traiçoeiras nos conselhos de ética, copo de vinho no rosto do senador galanteador, um herói vingador, gravações com revelações extravagantes, um ator que se arrisca gravando um senador para salvar o pai, banqueiro preso que tem o cabelo raspado como mostra perversa de autoridade. Enfim, roteiros, atores e cenas dignas das novelas mexicanas.

Só que não é uma novela mexicana. É um dramalhão político real em meio à mais grave crise econômica dos últimos tempos. Uma perversa combinação de inflação e recessão. E, o pior de tudo, a falta de opções e de iniciativas políticas para resgatar o país da paralisia e do desencanto. Ou seja, a falta de um final, qualquer que seja, para a história sem fim da corrupção, da mentira, da incompetência.

Enquanto o mundo político encena um dramalhão, o país sofre na vida real. Governo e oposição se debatem em torno do impeachment e transformam o processo na única saída que temos. Com ou sem impeachment, teremos um recomeço? Tomara que sim.

Seja quem estiver presidindo o Brasil, em noventa dias teremos decisões sérias a tomar. O governo, em sua indecisão e fragilidade, não completou o ajuste. Caso um novo governo pra valer seja formado, a agenda do ajuste e da retomada será absolutamente imprescindível.

E precisará da ampla colaboração de todas as principais forças políticas. Será o momento em que a vida real terá que ser mais autêntica do que o drama político. O momento do encontro do país com a verdade crua do ajuste, quando as lideranças que ainda não existem devem obrigatoriamente aparecer.

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